Passageiros


21h34 de uma sexta à noite. Entrei no ônibus. A trocadora dançava com os ombros uma música dos anos 90. No corredor, duas meninas falavam chiado sobre os mil dólares que o rapaz da turma tinha dado para uma delas em presentes – foram o celular, o ipad e todas aquelas outras coisinhas. “Que besta são os nerds!”. Saltaram juntas na parada dos bares. O clima era de sábado à noite.

21h37 da mesma sexta. A trocadora olhou estranho. Um homem de meia idade e um cheiro extravagante adentraram o ônibus. Era cheiro de nhaca.

Os anos sem banho pararam a música e todos os passageiros nos entreolhamos, paralisados, esperando para ver onde ele iria se sentar. Ele vinha manco. As panturrilhas estavam protegidas com uma atadura, mas o sangue por debaixo aparecia. Nos braços, agarrava uma sacola plástica meio cheia e meio vazia. Tinha os  cabelos emaranhados e cumpridos na face. Entre os cachos, apareciam os dois olhos – castanhos, perdidos, ignorados. Vagarosamente, ele escolheu duas cadeiras vazias. Estavam reservadas para prioridades, e ele, deficiente das pernas, de cuidados e de perspectivas, era uma. Foram cinco paradas e próximo ao parque, ele desceu.

21h46 dessa sexta. Enquanto o homem saia, uma criança subiu no ônibus pela porta traseira. A mãe cruzou a roleta da trocadora. O menino correu para o único banco com dois lugares vazios, o mesmo onde o homem havia sentado. Três pessoas reagiram: "Aí não!!!", "Ele estava aí!", "Sai daí, menino!!!".
O menino saiu assustado e se pendurou nas pernas da mãe.  A viagem seguiu.

21h51. Duas mulheres, negras, gordinhas, cheirosas de creme hidrante e condicionador de cabelo entraram no ônibus. Passaram pela trocadora. Quebraram o resto de nhaca que ainda pairava. Mudaram o assunto. A música voltou. Ninguém mais lembrava do homem. Cheguei no meu ponto e desci.

Um comentário:

Vera Margoniner disse...

Muito lindo Chica