Da memória ao voto


Recordar o passado ajuda a orientar o futuro. Os argentinos fazem isso com a ativa lembrança da ditadura e os judeus com os horrores do holocausto. Lembram para não repetir os mesmos erros. Nós brasileiros deveríamos fazer o mesmo com a escravidão, o genocídio indígena, a ditadura.  Lembrar o lado positivo da história também vale, principalmente em tempos comos os atuais, porque quando lembramos do passado, construímos também visão do queremos para o futuro. E foi pensando nisso que, quando vi o post de um amigo lembrando de quando esteve com Lula, resolvi voltar ao Brasil que experimentei de 2002 a 2010.

Em janeiro de 2002, eu chegava a Brasília para fazer vestibular. Chegava com a energia jovem, guerreira, de quem queria transformar o mundo. Parecia que o presidente que chegava comigo também. Eu imaginava que teria uma vida universitária politicamente ativa, que participaria de protestos e manifestações, mas não foi bem assim. Eu sentia que o mundo andava nos trilhos, que os movimentos sociais estavam próximos das decisões, e que muitas das minhas prioridades estavam na pauta:  inclusão social e combate à pobreza eram bandeiras do governo, o desmatamento na Amazônia era um problema abordado de frente e a democracia participativa parecia real. Eu ouvia histórias de ditaduras como quem escutava uma lenda – não havia a menor chance de acontecer.

Claro que nem tudo ia para frente. Na verdade, eu via muita maquiagem para buracos profundos – vivíamos em um país corrupto e a educação e saúde públicas continuavam de baixa qualidade. Bolsa Família parecia funcionar, mas não se mostrava suficientemente transformador. Aparecíamos internacionalmente como campões na redução do desmatamento, mas ainda faltava muito reconhecimento aos indígenas e quilombolas. A questão fundiária continuava um problema. O petróleo prometia ser uma salvação, mas seria efêmera e de impactos nefastos. E logo explodiu o Mensalão.

Apesar de tudo, eu não me via nas ruas. Eu acreditava na direção de transformação. Faltavam coisas, mas estávamos avançando. Não era uma revolução e nem era uma ditadura. Podia haver críticas, e eu as tinha, mas isso reforçava meu voto de confiança. Eu votei e votaria de novo em Lula.

A condenação e eminente prisão do ex-presidente tem um inegável impacto no meu voto nas futuras eleições, mas não muda minha intenção. Lembrando o passado, tenho certeza da direção que quero em outubro:

- quero prioridade para igualdade e inclusão social.
- quero um modelo de desenvolvimento sustentável, que reconheça, valorize e priorize os recursos naturais do Brasil, agregando valor e inteligência ao manejo, e não abuso e exaustão.
- quero o fortalecimento da nossa democracia, das nossas instituições, da justiça e da transparência. Sem ditadura e sem distorções.
- quero o reconhecimento merecido pelos povos indígenas, a reparação da história de escravidão, a igualdade de gênero e a liberdade religiosa.
- quero as condições para que as gerações futuras olhem para os fatos recentes da nossas história e pensem que é lenda. Que o assassinato de uma vereadora que defendia os direitos humanos[1], que um presidente que negocia emendas parlamentares retrógradas para não ser processado por corrupção[2], que um militar que se pronuncia por uma intervenção militar a depender do resultado de um julgamento[3], e tanto mais, que tudo isso seja coisa que não pode acontecer nunca mais.



[1] http://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2018-03/especialistas-da-onu-consideram-alarmante-assassinato-de-marielle-franco
[2] https://oglobo.globo.com/brasil/negociacoes-para-livrar-temer-de-denuncia-envolvem-12-bilhoes-21983281
[3] https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/04/general-da-reserva-diz-a-jornal-que-stf-induzira-violencia-se-votar-a-favor-de-lula.shtml

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